terça-feira, 8 de julho de 2014

Laxantes: usos e riscos

A constipação (prisão de ventre) é um problema para muitas pessoas em todo o mundo. Entretanto, devido aos diferentes significados que o termo representa, é difícil obter uma estimativa precisa sobre a prevalência mundial desta condição. Sabe-se que este tende a ser mais comum em mulheres, idosos e grávidas (1).

Algumas pessoas definem a constipação como uma dificuldade na evacuação, enquanto para outros significa a eliminação de fezes duras, incapacidade em evacuar quando se deseja ou ainda evacuação infrequente. 

Muitos consideram uma evacuação diária como algo essencial para a saúde, acreditando que o conteúdo do intestino possa ser prejudicial para saúde. Contudo, não há indícios de que substâncias presentes no intestino causem danos ao organismo, se o fígado estiver funcionando normalmente (2). É comum, inclusive, o uso rotineiro de laxantes com a intenção de promover uma “desintoxicação”. No entanto, especialistas concordam que pelo menos três evacuações por semana são perfeitamente normais.

A constipação pode ser sintoma de diversos problemas, tais como: obstrução mecânica por tumores; transtornos neurológicos como depressão, esclerose múltipla e doença de Parkinson; problemas endócrinos como diabetes e problemas de tireóide; distúrbios gastrointestinais como a Síndrome do intestino irritável e alterações na dieta. Por isso, é sempre importante consultar um médico para investigar as potenciais causas logo no início dos sintomas, principalmente se a constipação estiver associada à anemia, dores abdominais, perda de peso, sangue nas fezes ou se surgir em pessoas acima de 50 anos de idade (3).

Alguns medicamentos também podem causar constipação, tais como: antidepressivos, antialérgicos, analgésicos, antiácidos contendo aluminío, suplementos de cálcio e ferro.

Para o diagnóstico de constipação funcional, aquela cuja causa não pode ser definida, é necessário que sejam atendidos ao menos dois dos seguintes critérios, em pelo menos 12 semanas no último ano (1):

-  Esforço para evacuar durante pelo menos 25% das defecações;
-  Fezes em grumos ou duras em pelo menos 25% das defecações;
-  Sensação de evacuação incompleta em pelo menos 25% das defecações;
-  Sensação de obstrução/bloqueio das fezes em pelo menos 25% das defecações;
- Manobras manuais para facilitar em pelo menos 25% das defecações (por exemplo, evacuação com ajuda manual, apoio da musculatura da parte inferior da bacia, chamada de assoalho pélvico);
-  Menos de três evacuações por semana.

Uma vez excluídos outros problemas associados, em geral, as recomendações iniciais de tratamento envolvem mudanças no estilo de vida, como aumento no consumo de fibras, atividade física moderada e maior ingestão de água. O uso de laxantes só deve ser iniciado se estas medidas não forem suficientes (3).

Existem disponíveis no mercado diversas classes de laxantes, alguns exemplos e seus efeitos são descritos na Tabela abaixo. 

O primeiro grupo que pode ser empregado é o de formadores de volume, tais como,  a metilcelulose, policarbofila cálcica e os farelos de aveia e psílio. Estes medicamentos atuam ao aumentar a massa fecal, estimulando os movimentos intestinais. Em geral, seus efeitos só são observados após 72 horas de utilização e seu uso deve ser acompanhado sempre de um maior consumo de água para que se obtenha o efeito desejado.

Principais laxantes de venda livre e seus efeitos adversos.
Laxante
Nome comercial
Efeitos adversos
Bisacodil
Lacto-purga, Dulcolax
Dores abdominais, diarreia, redução dos movimentos intestinais com o uso prolongado.
Hidróxido de Magnésio
Leite de Magnésia Philips
Elevação dos níveis de magnésio no sangue, principalmente em pessoas com problemas renais.
Lactulose
Lactulona, Pentalac
Cólicas abdominais e gases. Náuseas e vômitos podem ocorrer em altas doses.
Uso prolongado pode causar diarreia com perda de água e sais, principalmente sódio.
Óleo mineral
Nujol
Pode prejudicar a absorção de vitaminas lipossolúveis, irritação anal, diarreia.
Não deve ser utilizado por via oral em pessoas com dificuldades de engolir devido ao risco de aspiração para os pulmões.
Policarbofila cálcica
Muvinor
Gases e sensação de plenitude gástrica (empachamento).
Reduz a absorção do antibiótico ciprofloxacina e do imunossupressor micofenolato.
Psílio
Metamucil, PlantaBen
Gases e dores abdominais.
Sene
Sene Herbarium
Diarreia, desidratação, perda de sais, principalmente potássio.
Pode reduzir o movimento intestinal normal.

Os laxantes osmóticos, que são aqueles que “atraem” água para o intestino grosso, tornando as fezes moles e fluidas, como o hidróxido de magnésio, lactulose e sorbitol, podem ser uma alternativa quando os formadores de volume não foram eficientes. 

Os derivados contendo magnésio apresentam efeitos em cerca de 1 hora e não devem ser empregados em pessoas com problemas renais (4). Os sais de magnésio são também utilizados na limpeza intestinal necessária em alguns exames ou cirurgias.

Os laxantes lubrificantes, como a glicerina e o óleo mineral, amolecem as fezes facilitando sua eliminação. 

A classe dos laxantes estimulantes promovem contração das paredes do intestino grosso e deslocamento das fezes, é representada pelo bisacodil e os fitoterápicos sene, ruibarbo e cáscara sagrada. Estes apresentam início de ação rápido e seu uso incorreto pode acarretar em danos importantes ao movimento intestinal, são os principais laxantes utilizados por pessoas que fazem uso abusivo (5).

Uso abusivo de laxantes

Existem basicamente três grupos de pessoas que fazem uso abusivo de laxantes:

- pessoas sofrendo de distúrbios alimentares, como bulimia e anorexia;
- pessoas de meia-idade ou idosos com problemas de constipação;
- esportistas com limites rígidos para controle de peso.

O uso de laxantes no controle do peso tem como base a ideia de que a diarreia irá evitar a absorção de nutrientes. Entretanto, os laxantes atuam no intestino grosso, enquanto a absorção de nutrientes ocorre anteriormente, ainda no intestino delgado. Desta forma, os laxantes promovem basicamente perda de água e, consequentemente, os riscos são a desidratação e alterações no equilíbrio ácido/base e de sais do organismo. 

A desidratação ativa o sistema de economia de água do corpo, ou seja, em resposta à perda de água, o corpo retém líquido e o resultado após a suspensão do uso do laxante é o inchaço. Entra-se então em um círculo vicioso, onde a pessoa ganha peso por causa da retenção de água e usa novamente o laxante para voltar ao peso desejável.

Existe ainda o risco de desenvolver tolerância ao uso de laxantes estimulantes, exigindo o uso de doses maiores para obter o efeito (4).

Outro fenômeno descrito como responsável pelo uso abusivo relaciona-se ao tempo de enchimento do intestino em uma evacuação normal e em uma ocasionada pelo uso de laxantes estimulantes. Na primeira, apenas parte do intestino grosso é esvaziada (ramo descendente do cólon), enquanto na segunda, há o esvaziamento de todo o intestino grosso. Portanto, mais tempo é necessário para a próxima defecação natural. O usuário interpreta esta demora como uma constipação e volta a fazer uso do laxante (2). 

Por fim, vale ressaltar que, apesar de serem amplamente empregados e serem facilmente adquiridos, é necessária cautela no uso destes medicamentos e caso seja detectado qualquer indício de uso indiscriminado, um médico deve ser consultado.

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Fontes:
1. World Gastroenterology Organisation. Constipação: uma perspectiva mundial [Internet]. World Gastroenterology Organisation. Available from: http://www.worldgastroenterology.org/assets/export/userfiles/constipation_pt.pdf
2. Lüllmann H, Langeloh A. Farmacologia texto e atlas. Porto Alegre: Artmed; 2008. 
3. Selby W, Corte C. Managing constipation in adults. Aust Prescr. 2010;33(4):116–9. 
4. Rang HP, Dale MM, Ritter JM, Flower RJ. Farmacologia. Rio de Janeiro: Elsevier; 2008. 
5. Roerig JL, Steffen KJ, Mitchell JE, Zunker C. Laxative Abuse. Drugs. 2010;70(12):1487–503.

Autora: Fernanda Lacerda da Silva Machado (Farmacêutica)

Revisão:
Danielle Maria de Souza Sério dos Santos
Danielle Martins Ventura
Samantha Monteiro Martins 

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